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Archive for Dezembro, 2011

Era um miúdo!

Era um miúdo!Um olhar pouco expressivo, sem mágoa no pensamento, mas com dureza na alma…Vinha sempre a lembrança de tudo o que não tinha e do pouco que possuía!Entre ter e haver..talvez um isqueiro fosse o seu objecto mais valioso!Para além da iluminação até nas noites pardas, havia o cigarro aceso (rebocado das mãos de homens que passavam) e a luz que transmitia para lhe dar um rumo…O tal caminho que ele procurara vezes sem fim…Até ao dia em que desistiu!Não porque o isqueiro deixasse de ter uso…Não!Simplesmente porque ele deixou de acreditar na luz!E foi ficando pelas ruas…umas vezes amargurado, outras resignado!Algumas vezes revoltava-se, mas não tinha gritos que chegassem na desenvoltura das suas cordas vocais!O frio simplesmente se intromete, nunca pedindo licença…aquela licença que ele nunca teve na vida!Nem mesmo quando ainda espreitou uma hipótese na carreira militar…Mas nem aí encontrou a porta aberta.O seu olhar pouco expressivo ancorava-se na dificuldade de visão, que nem qualquer percentagem se atrevia a numerar…Partiu, como sempre, na busca eterna…Sempre até desistir!Encostado nas paredes da cidade, é apenas mais um miúdo…Como o velho companheiro das noites vadias. O dono do canto do prédio 7 (sete vidas tem um gato)…Um pedaço de papelão e um cobertor a acompanhar. O cigarro atrás de outro cigarro, para aquecer lábios e mente!As conversas, como sempre, por cada palavra que aparecia por trás da barba brusca e envelhecida, eram de saudades da juventude e dos tempos em que a força assinalava a sua presença, em qualquer circunstância!O miúdo limitava-se a ouvir!A pensar que aquele panorama seria seu dali a uns anos!Uma imagem dolente, mas apaziguadora…No fim de contas, ainda havia espaço para ele viver…Talvez quem sabe, com um cigarro na boca, como o velho…E tendo um miúdo para companheiro de conversas infinitas sobre juventude e saudade!Mas que fosse um miúdo mais feliz, mais dinâmico na vida, que passasse e lhe desse um cigarro também…Um miúdo que o pudesse ouvir, que o pudesse ajudar…talvez, quem sabe, a encontrar finalmente um rumo!Que interesse em algo mais teria se esse rumo chegasse por fim?O velho tratava-o por miúdo!Que palavras tão doces, ao mesmo tempo que acendia o isqueiro para disfrutar de mais um cigarro!Enquanto isso, acendia-o por brincadeira,olhando a luz, como quem fixa por longos minutos uma fogueira!E tantas coisas boas lhe afagavam a alma nesses preciosos pensamentos!

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