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Posts Tagged ‘Prosa’

Era um miúdo!

Era um miúdo!Um olhar pouco expressivo, sem mágoa no pensamento, mas com dureza na alma…Vinha sempre a lembrança de tudo o que não tinha e do pouco que possuía!Entre ter e haver..talvez um isqueiro fosse o seu objecto mais valioso!Para além da iluminação até nas noites pardas, havia o cigarro aceso (rebocado das mãos de homens que passavam) e a luz que transmitia para lhe dar um rumo…O tal caminho que ele procurara vezes sem fim…Até ao dia em que desistiu!Não porque o isqueiro deixasse de ter uso…Não!Simplesmente porque ele deixou de acreditar na luz!E foi ficando pelas ruas…umas vezes amargurado, outras resignado!Algumas vezes revoltava-se, mas não tinha gritos que chegassem na desenvoltura das suas cordas vocais!O frio simplesmente se intromete, nunca pedindo licença…aquela licença que ele nunca teve na vida!Nem mesmo quando ainda espreitou uma hipótese na carreira militar…Mas nem aí encontrou a porta aberta.O seu olhar pouco expressivo ancorava-se na dificuldade de visão, que nem qualquer percentagem se atrevia a numerar…Partiu, como sempre, na busca eterna…Sempre até desistir!Encostado nas paredes da cidade, é apenas mais um miúdo…Como o velho companheiro das noites vadias. O dono do canto do prédio 7 (sete vidas tem um gato)…Um pedaço de papelão e um cobertor a acompanhar. O cigarro atrás de outro cigarro, para aquecer lábios e mente!As conversas, como sempre, por cada palavra que aparecia por trás da barba brusca e envelhecida, eram de saudades da juventude e dos tempos em que a força assinalava a sua presença, em qualquer circunstância!O miúdo limitava-se a ouvir!A pensar que aquele panorama seria seu dali a uns anos!Uma imagem dolente, mas apaziguadora…No fim de contas, ainda havia espaço para ele viver…Talvez quem sabe, com um cigarro na boca, como o velho…E tendo um miúdo para companheiro de conversas infinitas sobre juventude e saudade!Mas que fosse um miúdo mais feliz, mais dinâmico na vida, que passasse e lhe desse um cigarro também…Um miúdo que o pudesse ouvir, que o pudesse ajudar…talvez, quem sabe, a encontrar finalmente um rumo!Que interesse em algo mais teria se esse rumo chegasse por fim?O velho tratava-o por miúdo!Que palavras tão doces, ao mesmo tempo que acendia o isqueiro para disfrutar de mais um cigarro!Enquanto isso, acendia-o por brincadeira,olhando a luz, como quem fixa por longos minutos uma fogueira!E tantas coisas boas lhe afagavam a alma nesses preciosos pensamentos!

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Eu, que gosto tanto das palavras, estou “às aranhas” com isto da superação. É que se é algo intrínseco, que não depende do que não se tem, então, vamos lá superar. Superar a falta de dinheiro, quando ele não abunda, só tem mesmo que ser…Logo, ninguém tem mesmo dúvidas da capacidade de todos em superar. E tão depressa se vai do inferno ao céu…Vejam o Bolt. O homem teve uma crise de ansiedade e antecipou-se quando sabia que ia ser fácil…Deu para o torto. Mas, assim que voltou à carga, superou-se e, naturalmente, venceu!Pelo menos, já vem do Sampaio ( não confundam na fonética com o da Torreira), esta história do défice…E entre mandos e desmandos, já atravessámos várias fases em que o défice passou de importante a banal e vice-versa…Mas, assim que caiu a realidade, a crise veio para ficar e, com tal constatação, temos de nos superar…Claro que há muitos que não vão precisar tanto de superação, as coisas vão correndo de feição…Outros, para além de terem de consultar os compêndios sobre a morfologia dessa palavra “superação”, vão franzindo o sobrolho. E vão querer saber se é uma questão de atitude que nos vai libertar. Ou se é mesmo algo que nos é imposto e, portanto, seremos obrigados a seguir como uma comunidade automatizada…Lá está, é tudo uma questão de tempo! Superar durante um ano, não é o mesmo que superar durante uma década…E neste contexto, uma palavra pode não ter assim tanto significado, quando dita assim em avulso e com pouco sustento!

Vítor Gaspar: “Portugal vai superar crise“.

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Ela anda por aí.

Neste dia em que raiou a vontade de espevitar os neurónios, de sacudir músculos faciais e empolar os sorrisos, tudo se tornou mais real à luz das factualidades…Não me encargo com nada, nem me apetece ver gestos breves bem assentes na hipocrisia. A hipocrisia casa muito bem com o cinismo e não carece de qualquer benevolência de atitudes, como que para aliviar o sentimento dos outros…É puro sarcasmo mental!É uma diarreia que não cessa num só dia…É, como se pensa, muito dispensável numa hora, quanto mais num só dia…Mas na hora de sentir a dor, Imodium para aliviar!Tenho pena que não haja remédio que se possa tomar para nos impedir de sermos alvos da hipocrisia…Senti-la num assomo, através de um suspiro lançado pelo respirar do alguém que nos cerca, é desesperante!E é vê-la a marchar por todo lado, imponente e imaculada, dona da razão, aperaltada no seu viver…Ela não paga impostos, mas reclama dos seus direitos.Ela acusa sempre os outros, mas ela é que é aquilo que precisamente critica. Está sempre a dizer mal, mas não se coibe da dar constantes palmadinhas na costas. Ela não elogia, mas adora ser elogiada. Mas, a custo e por interesse, lá vai dizendo algo positivo ao seu interlocutor.A hipocrisia é um caso sério na sociedade. É um flagelo que o mundo não pretende ver resolvido. Quanto mais hipocrisia houver, mais uns poucos se governam à custa de muitos, muitos…E mais engraçado ainda, toda a gente sabe onde ela está, como é e como está, mas, por delicadeza, que a própria hipocrisia não tem, suporta-se a dita para bem da restante comunidade…Haja paciência!

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É o tempo.

Sempre me questionei se esta coisa do tempo tem alguma razão de ser. Se não é uma jogada psicológica de nos fazer sentir que temos de viver cada segundo ao segundo. Nem entendo que nos façam correr atrás dos dias, olhando o céu, num gesto tão frequente quanto escusado. Se chove, damos sempre conta. E há sempre alguém que nos relembra. Principalmente aquele alguém com quem não temos mais conversa nenhuma para dar. E é o tempo que nos salva…De outro modo, o apresentador do telejornal ou o meteorologista da tv dão-nos conta do grau de depressão do dia seguinte ou, pelo contrário, do grau de satisfação. E, se cada vez mais velho, vou dando conta da dificuldade que isto é de me motivar em dias de chuva!E ainda vou rogando pragas interiores quando me dizem que é tão bom estar à lareira e a ver televisão…Pois, há tempo para tudo!Mas gosto sempre mais de ir ver o mar, de olhar o céu ou de cheirar o vento…Não sou obcecado pelo relógio…Tudo no seu tempo, não tenho pressa!Não vejo motivos para fazer planos, para dizer que vou fazer isto ou aquilo…E ainda dizem que o tempo nos troca as voltas!Claro! É o tempo que manda!É o relógio e o meteorologista da TV. Até esse se pode enganar e, por consequência, nos enganar a nós. Quantas vezes não pensamos num piquenique  e desistimos:”Vai chover!”.E desistimos…Por isso é que deixo tudo de prevenção…Para o caso de…até pode ser que dê bom tempo!

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Ia por ir.

Caminhava ao sabor da corrente…Sem rumo a seguir, sem seguir meu instinto…Ia, por ir!Às vezes, é assim que me tomo sonhador…Sei que, em cada cais, há sempre um barco que chega de mais uma jornada, com muito para contar, sem ter ido de rota definida!Seguia, tão cúmplice dos meus pensamentos…sem apreciar as pedras que se isentavam do seu poder ou as folhas firmes das tileiras carregadas delas…No meu passo curto e melancólico, só olhava em frente, como que anestesiado das sensações vadias do que me rodeava!Ia, por ir!Nem me preocupava se voltava…Se os obstáculos me impediriam…Não há estrada que não tenha uma saída!Todas as carroças que passavam levavam seu feno para alimentar alguém…Os automóveis mais não deixavam que cheiro a combustível. E um ar mais espesso que custava a engolir…Não via montes ou pequenos declives. Havia pastagem que chegasse para a manada inteira…Mas com o sol que torrava…só a sombra não implicava!Os pequenos insectos iam fazendo figurões por tão  incomodativos serem!Não vislumbrava uma borboleta que me tirasse um sorriso!E ainda ia por ir…Mas tinha de recuperar meu fôlego. Sentei-me debaixo da tileira mais nua que encontrei. Era a que tinha mais sombra, mesmo assim.Todas as outras ficaram para trás…E não voltaria! Ia mais longo o regresso que a chegada!Mesmo não sabendo onde seria essa chegada.Ia por ir!Às vezes, é assim que me tomo sonhador!Ia tirando pedaços que me davam esse fôlego…Essa vontade de não voltar atrás…De saber que a cigarra, por muito que cantasse, ia sempre estar dependente de um minúsculo ser, trabalhador…E, vê-la, subindo a tileira, tão senhora de si, começando a cantar tão imperial, fez-me seguir…Ia por ir!Às vezes, é assim que me tomo sonhador!

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